domingo, 21 de julio de 2013

Ou a eterna repetição ~ Carlos Drummond Andrade

Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.
Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.
Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.
Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.
Atirei um limão n’água
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!
Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.
Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.
Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.
Atirei um limão n’água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.
Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.
Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.
Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.
Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.
Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.
Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.
Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?
Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.
Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.
Atirei um limão n’água
e caí n’água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.
Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.

O mundo é grande ~ Carlos Drummond de Andrade

O mundo é grande e cabe 
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe 
no breve espaço de te beijar.


Rise ~ Eddie Vedder

Such is the way of the world
You can never know
Just where to put all your faith
And how will it grow

Gonna rise up
Burning back holes in dark memories
Gonna rise up
Turning mistakes into gold

Such is the passage of time
Too fast to fold
And suddenly swallowed by signs
Low and behold

Gonna rise up
Find my direction magnetically
Gonna rise up
Throw down my ace in the hole


In Tintagel Graveyard ~ Brian Patten

Who brought flowers to this grave?
I, said the wren.
I brought them as seeds and then
Watched them grow.

No, said the wind. That’s not true.
I blew them across the moor and sea,
I blew them up to the grave’s door.
They were a gift from me.

They came of their own accord,
Said the celandine.
I know best. They’re brothers of mine.

I am Death’s friend,
Said the crow. I ought to know.
I dropped them into the shadow of the leaning stone.
I brought the flowers.

No, said Love,
It was I who brought them,

With the help of the wren’s wing,
With the help of the wind’s breath,
With the help of the celandine and the crow.

It was I who brought them
For the living and the dead to share,
I was the force that put those flowers there.

Dreamland ~ Edgar Allan Poe

 BY a route obscure and lonely, 
    Haunted by ill angels only, 
    Where an Eidolon, named NIGHT, 
    On a black throne reigns upright, 
    I have reached these lands but newly 
    From an ultimate dim Thule — 
From a wild weird clime, that lieth, sublime, 
          Out of SPACE — out of TIME. 

    Bottomless vales and boundless floods, 
    And chasms, and caves, and Titian woods, 
    With forms that no man can discover 
    For the dews that drip all over; 
    Fountains toppling evermore 
    Into seas without a shore; 
    Seas that restlessly aspire, 
    Surging, unto skies of fire; 
    Lakes that endlessly outspread 
    Their lone waters, lone and dead, — 
    Their still waters, still and chilly 
    With the snows of the lolling lily.

    By the lakes that thus outspread 
    Their lone waters, lone and dead, — 
    Their sad waters, sad and chilly 
    With the snows of the lolling lily, — 
    By the mountain — near the river 
    Murmuring lowly, murmuring ever, — 
    By the grey woods, — by the swamp 
    Where the toad and the newt encamp, —
    By the dismal tarns and pools 
            Where dwell the Ghouls, — 
    By each spot the most unholy — 
    In each nook most melancholy, — 
    There the traveler meets aghast 
    Sheeted Memories of the Past — 
    Shrouded forms that start and sigh 
    As they pass the wanderer by — 
    White-robed forms of friends long given, 
    In agony, to the worms, and Heaven. 

    For the heart whose woes are legion 
    'Tis a peaceful, soothing region — 
    For the spirit that walks in shadow 
    'Tis — oh 'tis an Eldorado! 
    But the traveler, traveling through it, 
    May not — dare not openly view it; 
    Never its mysteries are exposed 
    To the weak human eye unclosed; 
    So wills the king, who hath forbid 
    The uplifting of the fringed lid; 
    And thus the sad Soul that here passes 
    Beholds it but through darkened glasses. 

    By a route obscure and lonely, 
    Haunted by ill angels only, 
    Where an Eidolon, named NIGHT, 
    On a black throne reigns upright, 
    I have wandered home but newly 
    From this ultimate dim Thule.

Delírio ~ Anna Maria Dutra de Menezes de Carvalho

Quero amar verde-musgo alucinadamente
Com o amor tempestade a trovejar fremente
Rodopiando louco no vento que encrespado
Vai arrancar da terra o tronco mais cravado.
Quero amar como o rio varando enlouquecido
O barro de seu corpo no leito adormecido
A devorar faminto os prazeres das margens
Na febre dos instintos, na fuga das viagens.
Quero amar seiva-viva escorrendo alentada
A árvore gigante moradora da estrada
Quero cravar os dentes nos ramos ressequidos
Nas fôrças mais potentes de todos os sentidos.
Quero o amor dos pastos do verde deslumbrado
A subir pelo monte, erótico,encrespado
E no alto da montanha meu corpo abandonar
E entregar-me nua nos braços do luar.
Quero amar tão somente nesta diversidade
do mais contente, do amor mais saudade
Do amor honestidade suspiroso de alguém
Deste amor que em verdade nunca foi ninguém.
Eu quero o amor agreste e bestializado
Aquele amor que investe sobre o prado molhado
E num mugir sentido o seu corpo arremessa
Na ânsia dividida de desejo e promessa.
Eu quero amor lavado na água borbulhante
Da cachoeira em fúria selvática e vibrante
Gargarejando espasmos, sufocada ao martírio
Destes delírios pasmos, deste langor de lírio.
Aí quero ser eu mesma um tempo repisado
Entre o estêrco da terra e o barco sopitado
Nas patas do cavalo, nas botas do tropeiro
Quero ser esmagada pelo amor caminheiro
Estrada onde caminham as rústicas paixões
Carros de boi rangendo e touros ermitões.
Quero no roxo vivo do abrir da madrugada
Deitar-me sobre a terra e ser violentada
E depois quase morta de prazer e tristeza
Germinar em meu ventre a própria natureza. 

~~ G.Corso

Spirit
is Life
It flows thru
the death of me
endlessly
like a river
unafraid
of becoming
the sea